Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008

Prelúdio

Quando o descobridor chegou à primeira ilha

nem homens nus

nem mulheres nuas

espreitando

inocentes e medrosos

detrás da vegetação.

 

Nem setas venenosas vindas no ar

nem gritos de alarme e de guerra

ecoando pelos montes.

 

Havia somente

as aves de rapina

de garras afiadas

as aves marítimas

de vôo largo

as aves canoras

assobiando inéditas melodias.

 

E a vegetação

cujas sementes vieram presas

nas asas dos pássaros

ao serem arrastadas para cá

pela fúria dos temporais.

 

Quando o descobridor chegou

e saltou da proa do escaler varado na praia

enterrando

o pé direito na areia molhada

 

e se persignou

receoso ainda e surpreso

pensando n'El-Rei

nessa hora então

nessa hora inicial

começou a cumprir-se

este destino ainda de todos nós.


Poema de Jorge Barbosa

encontrado aqui

publicado por Trêza às 22:02
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Domingo, 3 de Agosto de 2008

Quadro

Lá vem nho Cacai da ourela do mar
Acenando a sua desilusão
De todos os continentes!
Ele traz o peito afogado em maresias
E os olhos cansados da distancia das horas...

Lá vem nho Cacai
Com a boca amarga de sal
A boiar o seu corpo morto
Na calmaria da tarde!

Nho Cacai vem alimentar os seus filhos
Com histórias de sereias...
Com histórias das farturas das Ame'ricas...

Os seus filhos acreditam nas Américas
E sabem dormir com fome...

                     (Hora grande, 1962, Onésimo Silveira)

publicado por Trêza às 21:05
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Domingo, 1 de Junho de 2008

Meus brinquedos

De repente
Ao lembrar dos brinquedos queridos
Que ficaram esquecidos
Dentro do armário
Me bate uma saudade
Me bate uma vontade
De voltar no tempo
De voltar ao passado
Mas nada acontece
Nada parece acontecer
E eu choro
Choro como o bebê que fui
E a criança que quero voltar a ser
Não quero crescer!

Clarice Pacheco

publicado por SAPO Cabo Verde às 10:42

editado por Treza! em 11/08/2008 às 01:07
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Domingo, 25 de Maio de 2008

Sentimento africano

 

Sangue negro

 

Ó minha África misteriosa, natural!

Minha virgem violentada!

                Minha Mãe!...

 

Como eu andava há tanto desterrada

de ti, alheada, distante e egocêntrica

por estas ruas da cidade engravidadas de estrangeiros

                Minha Mãe! Perdoa!

 

Como se eu pudesse viver assim,

desta maneira, eternamente,

ignorando a carícia, fraternalmente morna

                do teu olhar… Meu princípio e meu fim…

 

Como se não existisse para além dos cinemas e cafés

a ansiedade dos teus horizontes estranhos,

por desvendar…

Como se nos teus matos cacimbados,

não cantassem em surdina a sua liberdade, as aves mais belas,

                                       cujos nomes são mistérios ainda fechados!

 

Como se teus filhos

- régias estátuas sem par –

altivos, em bronze talhados,

endurecidos no lume infernal

do teu sol

causticante

tropical –

Como se teus filhos

intemerados, sofrendo,

lutando,

à terra amarrados

como escravo trabalhando, amando,

cantando,

meus irmãos não fossem!

 

- Ó minha Mãe África –

Magna pagã, escrava sensual

mística, sortílega,

à tua filha tresvairada,

                Abre-te e perdoa!

 

Que a força da tua seiva vence tudo

e nada mais foi preciso que o feitiço impor

dos teus tantãs de guerra chamando,

                dum-dum-dum-tam-tam-tam

                dum-dum-dum-tam-tam-tam

                para que eu vibrasse

                para que eu gritasse

                para que eu sentisse! – fundo no sangue da tua voz – Mãe!

                E vencida reconhecesse os nossos erros

e regressasse à minha origem milenar…

 

Mãe! Minha mãe África,

das canções escravas ao luar,

Não posso, NÃO POSSO, renegar

o Sangue negro, o sague bábaro

que me legaste…

Porque em mim, em minha alma, em meus nervos, ele é mais

                                                                                         forte que tudo!

 

Eu vivo, eu sofro, eu rio,

através  dele.

                Mãe!...

 

Noémia de Sousa, in ANDRADE, Mário, na noite grávida de punhais (Antologia temática de poesia africana). Instituto cabo-verdiano do livro, 1976:151

sinto-me:
publicado por SAPO Cabo Verde às 11:38

editado por Treza! em 11/08/2008 às 01:14
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