Domingo, 25 de Maio de 2008

Sentimento africano

 

Sangue negro

 

Ó minha África misteriosa, natural!

Minha virgem violentada!

                Minha Mãe!...

 

Como eu andava há tanto desterrada

de ti, alheada, distante e egocêntrica

por estas ruas da cidade engravidadas de estrangeiros

                Minha Mãe! Perdoa!

 

Como se eu pudesse viver assim,

desta maneira, eternamente,

ignorando a carícia, fraternalmente morna

                do teu olhar… Meu princípio e meu fim…

 

Como se não existisse para além dos cinemas e cafés

a ansiedade dos teus horizontes estranhos,

por desvendar…

Como se nos teus matos cacimbados,

não cantassem em surdina a sua liberdade, as aves mais belas,

                                       cujos nomes são mistérios ainda fechados!

 

Como se teus filhos

- régias estátuas sem par –

altivos, em bronze talhados,

endurecidos no lume infernal

do teu sol

causticante

tropical –

Como se teus filhos

intemerados, sofrendo,

lutando,

à terra amarrados

como escravo trabalhando, amando,

cantando,

meus irmãos não fossem!

 

- Ó minha Mãe África –

Magna pagã, escrava sensual

mística, sortílega,

à tua filha tresvairada,

                Abre-te e perdoa!

 

Que a força da tua seiva vence tudo

e nada mais foi preciso que o feitiço impor

dos teus tantãs de guerra chamando,

                dum-dum-dum-tam-tam-tam

                dum-dum-dum-tam-tam-tam

                para que eu vibrasse

                para que eu gritasse

                para que eu sentisse! – fundo no sangue da tua voz – Mãe!

                E vencida reconhecesse os nossos erros

e regressasse à minha origem milenar…

 

Mãe! Minha mãe África,

das canções escravas ao luar,

Não posso, NÃO POSSO, renegar

o Sangue negro, o sague bábaro

que me legaste…

Porque em mim, em minha alma, em meus nervos, ele é mais

                                                                                         forte que tudo!

 

Eu vivo, eu sofro, eu rio,

através  dele.

                Mãe!...

 

Noémia de Sousa, in ANDRADE, Mário, na noite grávida de punhais (Antologia temática de poesia africana). Instituto cabo-verdiano do livro, 1976:151

sinto-me:
publicado por SAPO Cabo Verde às 11:38

editado por Treza! em 11/08/2008 às 01:14
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1 comentário:
De BSH a 20 de Junho de 2008 às 20:43
Lindissimo.

http://desabafos-solitarios.blogspot.com/


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